LAÇOS DE FAMILIA

Publicado em 1960, Laços de família é um dos pontos máximos da prosa de Clarice Lispector, talvez o supra-sumo de seus contos. As narrativas dessa obra usam constantemente o fluxo de consciência, por meio do qual conhecemos o universo mais íntimo das personagens. É um expediente que autoriza sua literatura a ser chamada ora de psicológica, ora de introspectiva.

Suas personagens são sempre flagradas no momento em que, a partir do cotidiano banal, alcançam o lado misterioso, inusitado, diferente da existência humana, mesmo que não consigam entendê-lo. No fim, acabamos nos deparando com histórias de exteriorização do oculto, em que o protagonista termina buscando, nos elementos exteriores, o seu interior. Ou seja, a busca da identidade passa pela busca do outro, seja humano, animal ou objeto.
O primeiro conto é Devaneio e embriaguez de uma rapariga, que chama a atenção pelo virtuosismo da autora de reproduzir com fidelidade as expressões típicas de Portugal (lusitanismos) no fluxo de consciência da protagonista, de fato portuguesa. Essa personagem está entediada com seu papel de esposa e mãe de família, chegando a relaxar em suas tarefas de tal forma que, presa à cama, o marido pensa que está adoentada. É o tédio que se instala.

Uma mudança ocorre quando ela e o marido vão jantar com um rico negociante. A protagonista embebeda-se, o que lhe abre caminho para a explosão de vida, longe da mesmice do cotidiano. Fica sempre na vertigem da saída de seus limites, algo até próximo do vexame, mas sente-se segura por ser amparada pela presença de seu marido.

Sua felicidade chega a ser comprometida com a chegada no restaurante de uma loira, dona de um padrão de beleza mais em voga na sociedade. A humilhação parece ficar consagrada pelo fato de a nova figura portar chapéu, ao contrário da portuguesa.

O jogo é virado quando a portuguesa percebe, ao olhar para a cintura fina da moça, que esta estaria impossibilitada de parir. Conclui: bonita, mas ineficiente no que seria sua função feminina. Isso talvez explique a comparação que a protagonista faz entre si e uma vaca: leite, maternidade, vida.

O resto do conto dedica-se ao triunfo da portuguesa, em meio a uma náusea provocada pela bebedeira, que lhe faz sentir o corpo agigantado. Atinge, aí, sua epifania. Sente-se bem. É esposa e mãe de família. Em meio à sensação de que o leite está estourando em seu seio, determina que arrumará sua casa, colocará seu lar nos eixos. Assume majestosamente o seu papel feminino.

O segundo conto é Amor, cuja protagonista é outra dona de casa, que passa sua vida cuidando do lar e da família, como uma maneira de ocupar o tempo e fugir de si mesma. Nota-se, pois, que não está feliz.
Numa tarde, enquanto todos estavam ausentes, resolve fazer compras. No caminho de volta, no bonde, uma cena inusitada ocorre: vê um cego mascando chiclete. Esse ato maquinal feito na escuridão talvez possa ser comparado ao estilo de vida da protagonista. Com certeza, foi um detonador de desequilíbrio na existência insossa da personagem, o que fica simbolizado no tranco que o bonde dá, provocando a queda de suas compras.

Tão atrapalhada a personagem fica, que desce no ponto errado. Dirige-se ao Jardim Botânico. É o momento e o lugar de sua epifania. Diante das árvores, sua emoção é muito grande. Esses vegetais davam frutos, mas também eram sugados por parasitas, o que lhe deu um incômodo nojo (seria uma metáfora de sua condição feminina?).

Perde tanto a noção do tempo que, quando se lembra de que tinha uma família para cuidar, descobre que o parque estava fechado com ela dentro. Enquanto se esforça para encontrar alguém que lhe permitisse a saída, realiza uma inversão de valores. Se antes achava anormal, loucura um cego mascando chiclete, agora é o seu próprio estilo de vida, de dona de casa, mergulhado em rotinas domésticas, que se torna uma loucura.
Consegue voltar, dedicando-se ao seu marido e aos seus filhos. Ama-os, mas agora de uma forma incomodante; ama-os sentindo até nojo.

O terceiro conto, Uma galinha, pode ser resumido na seguinte indagação do narrador: "Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser?". É a história de uma galinha que foi comprada para servir de refeição a uma família, mas que consegue fugir num vôo prodigioso e desajeitado. É a luta por vida, mesmo que numa existência da forma mais instintiva.

No entanto, é perseguida pelo chefe da família, numa pândega corrida pelos telhados da vizinhança, até ser agarrada. De volta ao lar opressor, no meio do estresse misteriosamente a ave bota um ovo. Mais uma vez a imagem da feminilidade associada à maternidade. Tal ato mostra-se tão sagrado, pois que à véspera da morte ela dá vida, que acaba sendo poupada, tornando-se o xodó da casa.

O tempo passa, e com ele talvez todo o aspecto divino de sua feminilidade. Um dia acaba por servir de refeição.

O quarto conto é A imitação da rosa. Laura, sua protagonista


FABIANO LIMA

4 comentários:

  1. muito grande esse "resumo" e cansativo também, se trata de um tema muito simples e muito falado, que aparece em muitos livros e filmes.

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  2. Texto longo e cansativo. Há muitas partes desnecessárias que poderiam -deviam- ser cortadas. O texto em si está bom, porém longo!

    By: Raphael Mendes

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  3. Há um problema estrutural que necessita ser corrigido.Você escolheu analisar va obra superficialmente e depois alguns contos,mas não colocou na íntegra.Melhor um conto em análise aprofundada do que essa incoerência que resultou.Corrija,pois o restante da pesquisa está correta.

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  4. Faltou concluir o texto hein...

    By: Raphael Mendes

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